Trecho de A Beleza rente ao chão
“(...) — 'Se o amor tem seus ricos? Ele
é seus riscos, e nada muito além disso! Sem o risco, sem um mergulho no torvelinho
de uma desgraça iminente, nunca se pode amar ou ser amado um dia. E por um
acaso o último ato de toda grande história de amor legada a nós até hoje não
foi encenado também em meio a uma grande tragédia? E que pesem o caso dos
amantes que estão ligados uns aos outros de tal modo que a separação causada
pela morte de um inspira no outro um único desejo lúgubre de também deixar a
vida. Para o que vive é insuportável seguir sem aquele que se foi — restando a
ele vagar pelo mundo como se um órgão vital lhe tivesse sido amputado ainda em
vida:
“Ó, bem amada, aspira-
me
de um hausto só,
para que adormeça
para que amar possa.”
Todos esses amantes foram tão
irremediavelmente transfigurados, tão violentamente tocados por um sentimento
que a maioria esmagadora dos mortais jamais conhecerá um dia, que também seria
demais esperar que ao final saíssem ilesos. O que se exige dos amantes é que
se transponha o fosso — e a maioria esmagadora das pessoas vivem e morrem sem
nunca transpor. Estão todas tão mesquinhamente preocupadas em salvar o próprio
couro, tão atoladas em seus estúpidos afazeres, tão aferradas ao seu heroísmo
miúdo — que nunca sairão de si mesmas, nunca saltarão o fosso. Transpor o fosso
pela paixão ao risco — um imperativo perigoso contra o qual é inútil erguer a
voz nas coisas do amor, mesmo porque o Amor é um deus caprichoso infenso ao
cálculo. Algo feito para os que foram moldados em barro ruim. Mas, é possível
levar uma vida sem nunca amar ou ter sido amado por alguém? Sim, e lá fora
estão todos que não me deixam mentir! As pessoas passam pelo mundo sem jamais
terem uma experiência estética autêntica, sem nunca terem transcendido o plano
raso das emoções vulgares: o mesmo é válido para o amor — e não há nada de
anormal nisso! E nesses casos, ainda se pode dizer que levaram uma vida
inautêntica? Ora, e quem sou eu para dizer que sim? Mas uma vida besta,
talvez... Ai de mim! Em todo caso, ou se
vive o amor — por amor risco — ou não se vive. Há uma escolha a ser feita aqui'.
Com isso eu esperava um efeito
devastador em Larissa! Acabava de lhe passar um galanteio que extraíra do mais
recôndito do desespero. Mas também essa foi uma doce ilusão enquanto durou —
uma cartada de principiante. Martirizei-me no íntimo por não ter contado com a
mais que esperada indiferença de Larissa. Afinal, por que isso tudo a impressionaria?
Por Deus, Larissa era só uma maldita de uma criatura vulgar! Eu podia
devassar-lhe diante dos olhos todos covis da alma, podia eu ser o maior
poeta vivo a lhe cantar os segredos mais sublimes e imperscrutáveis; podia eu mesmo ser o maior filósofo sobre a terra a compor-lhe o mais extraordinário libelo confessional
que jamais qualquer homem sob o sol tivera nas mãos, e ainda sim nada eu agitaria na placidez de sua alma ruminante! Eu estava profundamente devastado,
me sentia tão desamparado nos cumes gélidos de minha própria impotência que
desatei a entornar meu whisky em poderosas
goladas que me desciam rasgando a garganta no ritmo de aboladas frenéticas. Devasta-me
reconhecer que qualquer coisa mais à toa poderia atrair a paixão e a boa
disposição de Larissa: um solo de guitarra, uma piada ou um gracejo tolo — qualquer dessas coisas que
já não eram mais da prerrogativa de um sujeito como eu, alguém que fora expulso
para sempre a ponta pés do paraíso da plenitude das vacas. Eu era um cara de
espírito, por Deus, eu era! Tonteei de bêbado e desatei a chorar como uma
criança desamparada. Os soluços me saiam em bom som, rasgando o pano silencioso
da noite que então fazia.
Eu imaginava, com grande lástima,
toda dor e humilhação com as quais tiveram que conviver, em registo
extemporâneos, os grandes espíritos para que ao final recompensassem suas
ingratas e vulgares amantes com a guirlanda da imortalidade. Penso em nomes imorredouros
lembrados até hoje como o de Charlotte Buff, por quem Goethe — cuja
natureza, segundo Nietzsche, era tal como a do bronze — rastejou e lambeu o chão
em que pisaram os pezinhos miúdos dessa cortesã delicada que teria inspirado a
heroína exangue de Werther. Ou de Mme. Dembowski, pelas mãos de cuja rapariga, Stendhal, segundo confessa o
próprio escritor, teria vivido o evento mais fantástico e torturante de sua
vida. Presença vista de forma onipresente em livros como Ernestine e em seu barroco De
l’amour. Todas elas fêmeas que com uma fria e inacreditável indiferença
impingiram infinitas agruras a esses grandes e célebres sofredores. Que evento
desmedidamente extraordinário que esses nomes nos sejam lembrados até hoje — que a
inútil e diminuta existência dessas criaturas tenazes por vezes tenha movido
moinhos na diligência milimétrica de um homem de gênio. Que miséria vê-los
aferrados à loucura de exprimir, em grandes linhas, uma ideia poética sem
sequer suspeitarem que essa mesma ideia neles era infinitamente maior que a vulgaridade real de todas essas mulheres ingratas. Esses escravos românticos, seivas musguentas do tutano do lirismo, com suas forças drenadas pela grandeza e estupidez de uma missão que os sobrepujava em força; homens tragados pela necessidade de dar expressão a um afeto
irracional desperto pela força um quadril bem delineado — de cuja realização
neste mundo dependiam seu orgulho e integridade. Mas frente a todas havia
Larissa, a mais vulgar dentre elas! Jamais moveria uma fagulha do meu
veio por ti, Larissa. Nunca recompensarei a peçonha inoculada pelos teus lábios
rosados e opulentos. Jamais te daria um livro, minha ingrata Larissa!"
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