quinta-feira, 2 de junho de 2016



Trecho de A Beleza rente ao chão

“(...) — 'Se o amor tem seus ricos? Ele é seus riscos, e nada muito além disso! Sem o risco, sem um mergulho no torvelinho de uma desgraça iminente, nunca se pode amar ou ser amado um dia. E por um acaso o último ato de toda grande história de amor legada a nós até hoje não foi encenado também em meio a uma grande tragédia? E que pesem o caso dos amantes que estão ligados uns aos outros de tal modo que a separação causada pela morte de um inspira no outro um único desejo lúgubre de também deixar a vida. Para o que vive é insuportável seguir sem aquele que se foi — restando a ele vagar pelo mundo como se um órgão vital lhe tivesse sido amputado ainda em vida:

                                            “Ó, bem amada, aspira-
                                            me de um hausto só,
                                            para que adormeça
                                            para que amar possa.”

Todos esses amantes foram tão irremediavelmente transfigurados, tão violentamente tocados por um sentimento que a maioria esmagadora dos mortais jamais conhecerá um dia, que também seria demais esperar que ao final saíssem ilesos. O que se exige dos amantes é que se transponha o fosso — e a maioria esmagadora das pessoas vivem e morrem sem nunca transpor. Estão todas tão mesquinhamente preocupadas em salvar o próprio couro, tão atoladas em seus estúpidos afazeres, tão aferradas ao seu heroísmo miúdo — que nunca sairão de si mesmas, nunca saltarão o fosso. Transpor o fosso pela paixão ao risco — um imperativo perigoso contra o qual é inútil erguer a voz nas coisas do amor, mesmo porque o Amor é um deus caprichoso infenso ao cálculo. Algo feito para os que foram moldados em barro ruim. Mas, é possível levar uma vida sem nunca amar ou ter sido amado por alguém? Sim, e lá fora estão todos que não me deixam mentir! As pessoas passam pelo mundo sem jamais terem uma experiência estética autêntica, sem nunca terem transcendido o plano raso das emoções vulgares: o mesmo é válido para o amor — e não há nada de anormal nisso! E nesses casos, ainda se pode dizer que levaram uma vida inautêntica? Ora, e quem sou eu para dizer que sim? Mas uma vida besta, talvez... Ai de mim!  Em todo caso, ou se vive o amor — por amor risco — ou não se vive. Há uma escolha a ser feita aqui'.
Com isso eu esperava um efeito devastador em Larissa! Acabava de lhe passar um galanteio que extraíra do mais recôndito do desespero. Mas também essa foi uma doce ilusão enquanto durou — uma cartada de principiante. Martirizei-me no íntimo por não ter contado com a mais que esperada indiferença de Larissa. Afinal, por que isso tudo a impressionaria? Por Deus, Larissa era só uma maldita de uma criatura vulgar! Eu podia devassar-lhe diante dos olhos todos covis da alma, podia eu ser o maior poeta vivo a lhe cantar os segredos mais sublimes e imperscrutáveis; podia eu mesmo ser o maior filósofo sobre a terra a compor-lhe o mais extraordinário libelo confessional que jamais qualquer homem sob o sol tivera nas mãos, e ainda sim nada eu agitaria na placidez de sua alma ruminante! Eu estava profundamente devastado, me sentia tão desamparado nos cumes gélidos de minha própria impotência que desatei a entornar meu whisky em poderosas goladas que me desciam rasgando a garganta no ritmo de aboladas frenéticas. Devasta-me reconhecer que qualquer coisa mais à toa poderia atrair a paixão e a boa disposição de Larissa: um solo de guitarra, uma piada ou um gracejo tolo — qualquer dessas coisas que já não eram mais da prerrogativa de um sujeito como eu, alguém que fora expulso para sempre a ponta pés do paraíso da plenitude das vacas. Eu era um cara de espírito, por Deus, eu era! Tonteei de bêbado e desatei a chorar como uma criança desamparada. Os soluços me saiam em bom som, rasgando o pano silencioso da noite que então fazia.
Eu imaginava, com grande lástima, toda dor e humilhação com as quais tiveram que conviver, em registo extemporâneos, os grandes espíritos para que ao final recompensassem suas ingratas e vulgares amantes com a guirlanda da imortalidade. Penso em nomes imorredouros lembrados até hoje como o de Charlotte Buff, por quem Goethe — cuja natureza, segundo Nietzsche, era tal como a do bronze — rastejou e lambeu o chão em que pisaram os pezinhos miúdos dessa cortesã delicada que teria inspirado a heroína exangue de Werther. Ou de Mme. Dembowski, pelas mãos de cuja rapariga, Stendhal, segundo confessa o próprio escritor, teria vivido o evento mais fantástico e torturante de sua vida. Presença vista de forma onipresente em livros como Ernestine e em seu barroco De l’amour. Todas elas fêmeas que com uma fria e inacreditável indiferença impingiram infinitas agruras a esses grandes e célebres sofredores. Que evento desmedidamente extraordinário que esses nomes nos sejam lembrados até hoje — que a inútil e diminuta existência dessas criaturas tenazes por vezes tenha movido moinhos na diligência milimétrica de um homem de gênio. Que miséria vê-los aferrados à loucura de exprimir, em grandes linhas, uma ideia poética sem sequer suspeitarem que essa mesma ideia neles era infinitamente maior que a vulgaridade real de todas essas mulheres ingratas. Esses escravos românticos, seivas musguentas do tutano do lirismo, com suas forças drenadas pela grandeza e estupidez de uma missão que os sobrepujava em força; homens tragados pela necessidade de dar expressão a um afeto irracional desperto pela força um quadril bem delineado — de cuja realização neste mundo dependiam seu orgulho e integridade. Mas frente a todas havia Larissa, a mais vulgar dentre elas! Jamais moveria uma fagulha do meu veio por ti, Larissa. Nunca recompensarei a peçonha inoculada pelos teus lábios rosados e opulentos. Jamais te daria um livro, minha ingrata Larissa!" 

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