Se n'algum dia
O passado te tomar de assalto
E te surgir diante dos olhos
Com seus cabelos vermelhos
A lhe escorrer das espáduas:
Tente não ceder
À trapaça do destino.
Faça algum exercício
corra até a academia de boxe
E esmurre com força o punching ball
Ou lave a louça que há dias
Jaz engordurada sobre a pia.
Um pouco do teu Rabelais à tardinha
também não fará mal...
Se, ainda assim, o destino te sorrir
Um riso complacente
E insistir em trazer o passado
Com seus abraços quentes
E com seus olhos de fogo
No jeito de te incendiar o peito
Isso será como morrer...
Então, resista.
Dê uns bons tragos no teu scotch
E tente passar por alto
O fulgor doentio da cidade iluminada
Que se insinua pela janela ao anoitecer.
Tente dormir um pouco
Antes que seja tarde
Antes que amanheça...
terça-feira, 30 de janeiro de 2018
quarta-feira, 3 de janeiro de 2018
Trecho de A Beleza rente ao chão
E foi assim que dei
cabo ao lance com Tamara. Aconteceu na antevéspera do Réveillon, e Tamara
desatou a chorar até borrar a fronha das almofadas com redondas nódoas de
lágrimas. Lembro-me das lágrimas lhe rolando pelo rosto e como já havíamos nos
estragado um para o outro já havia tempo. Tamara tinha desabado um caminhão de
lama em mim e eu por cima dela. Soube, então, do caso que teve no passado com um
velho, sr. Miochi. Senhor Miochi era como um pai pra ela, o pai que Tamara nunca
teve. Senhor Miochi era como um daqueles deuses que sua mãe cultuava e que a
ensinou desde cedo a adorar também: “Tamara, você precisa de um homem de
verdade! Um homem de verdade é aquele que banca você”.
Agora me vinha que um
velho nojento, sr. Miochi, lhe tinha tocado a carne com suas mãos asquerosas,
cada fibra daquele corpo que eu cuidei como se fosse uma relíquia sagrada, cada
canto daquele corpo que busquei desvendar os mistérios como uma urna hermética. Uma porcaria de um velho depravado que agora ela tinha como um pai porque lhe
estendera a mão num momento de desespero, como um anjo salvador, para enfiá-la
numa loja que era propriedade sua na época. Mas, não, sr. Moichi era um homem
bom. Ela o conhecera num programa, por indicação de amigas que ganhavam a vida se
prostituindo. Isso aconteceu depois de Tamara ter deixado sua casa, cansada de
ser tratada pela mãe como um indivíduo de quinta categoria. E depois de ter se
apaixonado pela carne de Tamara, sr. Miochi a ofereceu uma ocupação em sua
loja. Lá ela lavaria o banheiro, esfregaria o chão e lhe serviria os fregueses.
Mais tarde, sr. Miochi a enfiaria num carro grande e confortável, treparia com
ela até suar o rego entre suas nádegas flácidas e a repousaria sobre sua pança
saliente da qual despontava um emaranhado de pelos nodosos. Depois, diria
palavras afáveis que trariam alento à Tamara porque, no fundo, ela não passava
de uma criança solitária e assustada. E antes de volta para a esposa e para os
filhos, sr. Miochi depositaria Tamara em uma pensão que lhe arrumara por uma
bagatela, onde faria vizinhança com outras putas e todo tipo de enjeitados. Boa carne, essa Tamara, senhores.
Mas, não era bem assim, Tamara não era puta. Ela
se apaixonou pelo sr. Miochi e hoje o tinha como um pai. Vê só? No fundo, ele
só a ajudava, e fazia o restante por amor mesmo. Era deprimente como peso da
culpa quedava sobre os ombros de Tamara, e como seu rosto se desfigurava
enquanto as coisas vinham à tona. Soube, ainda, que por ocasião da falência de seu negócio, Tamara teve que deixar a loja do Sr. Miochi para voltar a trabalhar num
puteiro, até que sua mãe, mais tarde, lhe arrancasse da pensão pelos cabelos e a
arrastasse de volta pra casa. Pobre Tamara. Lamento sua sorte por ver num
indivíduo vil como esse um pai. Mulheres como Tamara passam por todo tipo de provações,
se tornam duras e ligeiras como um roedor faminto que se esgueira no escuro atrás
de alimento, mas detêm uma ternura impar incrustrada no peito. Se você lhe der
um pouco de carinho e atenção elas são capazes de te adorar, de depositar
presentes aos seus pés.
Já tinha conhecido mulheres do tipo antes de Tamara. Jéssica, uma putinha que trabalhava num karaokê no bairro da Liberdade. Saímos por um tempo depois de ter conhecido Jéssica num bar e tenho lembranças vivas de sua humanidade em ter me dito, com impressionante coragem e honestidade, como ela ganhava a vida como puta sem que eu a perguntasse. Ela tinha me achado um cara legal, e achava justo que eu soubesse de tudo antes que ocorresse qualquer coisa. Achei extravagante na época, porque eu não me importava mesmo. Hoje o gesto me parece mais compreensivo. Do mesmo modo que não se pode falar mal de Rachel, moça que tinha sido minha aluna num curso de história que tinha dado a ela anos atrás, mas que agora sustentava a si e a mãe com alguns poucos clientes que lhe fodiam a bocetinha por alguns cruzados. Ela achava tudo isso ridículo, mas precisava se manter já que a faculdade lhe exigia muito pra poder trabalhar regularmente. Mulher de colhões, essa Rachel.
Já tinha conhecido mulheres do tipo antes de Tamara. Jéssica, uma putinha que trabalhava num karaokê no bairro da Liberdade. Saímos por um tempo depois de ter conhecido Jéssica num bar e tenho lembranças vivas de sua humanidade em ter me dito, com impressionante coragem e honestidade, como ela ganhava a vida como puta sem que eu a perguntasse. Ela tinha me achado um cara legal, e achava justo que eu soubesse de tudo antes que ocorresse qualquer coisa. Achei extravagante na época, porque eu não me importava mesmo. Hoje o gesto me parece mais compreensivo. Do mesmo modo que não se pode falar mal de Rachel, moça que tinha sido minha aluna num curso de história que tinha dado a ela anos atrás, mas que agora sustentava a si e a mãe com alguns poucos clientes que lhe fodiam a bocetinha por alguns cruzados. Ela achava tudo isso ridículo, mas precisava se manter já que a faculdade lhe exigia muito pra poder trabalhar regularmente. Mulher de colhões, essa Rachel.
Mas o caso com Tamara era
diferente. Eu tinha me apaixonado por ela, e pensar que o sexo da mulher por
quem você está apaixonado é moeda soante no cofre de um indivíduo qualquer é
algo que dói. Talvez eu ainda não estivesse amadurecido para essa coisa de
sentimentos, mas o fato é que não soube lidar. Ela podia ter me dito, oh, Tamara, teríamos sido grandes amigos. Eu a teria usado como objeto das minhas perversões sexuais, algo para o qual ela foi feita. Teríamos nos divertido. Eu sei, vc tinha medo, mas, me envolver nessa? Que diabos! Mas, por outro lado, ela não teria se doado, tampouco eu o faria, e jamais teríamos nos aquecido no calor e na ternura dos nossos melhores dias. Bem, que seja assim: fiquemos com isso, ao menos.
Que Tamara tenha sido puta, eu sequer a reprovo, o que lastimo é o fato de Tamara ter visto um pai num sujeito como aquele Sr. Miochi. Isso me pareceu tão estúpido, tão miseravelmente ridículo e despropositado, que mergulhei em devaneios depois de ter ouvido aquilo. Voltei ao século XV, vi os portugueses enrugando o mar enquanto se aproximavam da costa brasileira e como mais tarde eles fodiam as mulheres nativas com seus paus sifílicos. Regredi até o tempo de Cleópatra de quatro enquanto Marco Antonio batia com a rola na sua cara e dizia: "você é uma boa menina, rainha". Tudo isso enquanto Tamara me olhava com seus olhos doentios. Lastimo mesmo o fato de ter visto algo em Tamara, uma ideia, pela qual me apaixonei sem ter enxergado para além do véu que havia ali nada além de uma menininha dobrada pela voragem do mundo. Talvez isso tenha me derrubado pra valer na ocasião. Lembro de mais tarde de ter me recordado das palavras e do semblante torturado de Tamara e de ter chorado até me empapar o rosto de lágrimas como há muito tempo não fazia. Tamara não teve a sorte que merecia, era uma criança boa e sonhadora, algo disso ainda eu via nos seus olhinhos de puta triste. Queria que Tamara figurasse como o capítulo mais belo do livro que escrevia, mas restou a ela os parcos caracteres de algumas páginas tristes. Queria que sua sorte tivesse sido outra e que o momento em que nossas rotas tivessem se tocado estivéssemos maduros um para o outro. Mas, se o destino não quis assim, então, que ele seja senhor. Queria que Tamara não chorasse mais. Boa sorte, Tamara.
Que Tamara tenha sido puta, eu sequer a reprovo, o que lastimo é o fato de Tamara ter visto um pai num sujeito como aquele Sr. Miochi. Isso me pareceu tão estúpido, tão miseravelmente ridículo e despropositado, que mergulhei em devaneios depois de ter ouvido aquilo. Voltei ao século XV, vi os portugueses enrugando o mar enquanto se aproximavam da costa brasileira e como mais tarde eles fodiam as mulheres nativas com seus paus sifílicos. Regredi até o tempo de Cleópatra de quatro enquanto Marco Antonio batia com a rola na sua cara e dizia: "você é uma boa menina, rainha". Tudo isso enquanto Tamara me olhava com seus olhos doentios. Lastimo mesmo o fato de ter visto algo em Tamara, uma ideia, pela qual me apaixonei sem ter enxergado para além do véu que havia ali nada além de uma menininha dobrada pela voragem do mundo. Talvez isso tenha me derrubado pra valer na ocasião. Lembro de mais tarde de ter me recordado das palavras e do semblante torturado de Tamara e de ter chorado até me empapar o rosto de lágrimas como há muito tempo não fazia. Tamara não teve a sorte que merecia, era uma criança boa e sonhadora, algo disso ainda eu via nos seus olhinhos de puta triste. Queria que Tamara figurasse como o capítulo mais belo do livro que escrevia, mas restou a ela os parcos caracteres de algumas páginas tristes. Queria que sua sorte tivesse sido outra e que o momento em que nossas rotas tivessem se tocado estivéssemos maduros um para o outro. Mas, se o destino não quis assim, então, que ele seja senhor. Queria que Tamara não chorasse mais. Boa sorte, Tamara.
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