sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Relato do tempo do Abissal


Assim me encontro: — suspenso por sobre o abismo. Um cigarro pálido e fumarento me mantém sustento, e nele me agarro com as duas mãos em revezamento. À esmo vão os meus pés, ao sabor dos estampidos que irrompem de profundas entranhas abíssicas; ah, entidade de epiderme lutuosa, de mucosas difíceis, odorosa e de fala ruidosa. Alcunhei-a asfalto, para melhor resisti-la psicologicamente enquanto padeço. E crepitando à beira, vem em ondas, maçar meus exaustos ouvidos, um grito espadachim, estentor do nada:
- Deus morreu! O futuro morreu!