"Todo dia algo é posto num trilho que segue seu caminho em meio ao emaranhado onde tantos outros itinerários se entrecruzam. E assim, algo segue ondulando sobre o relevo do acaso até que convirja sua rota com outra num ponto em que o que se sucede é uma colisão. Para o bem ou para o mal, na origem de tudo o que é desmedidamente grande há sempre uma colisão, sempre um choque selando a urdidura do acaso. A colisão de um meteorito com o nosso planeta teria trazido como seu adventício o desabotoar da vida — nada menos que o evento mais extraordinário encenado pela trama cósmica. Dessa colisão, entao, teria se irradiado tudo o que pulsa sob o sol: as plantas, os peixes, as aves, os homens, as mulheres — e também os lábios rosados de Ketty. Os lábios de Ketty, auge da criação, rolando sobre os meus no ponto exato em que duas rotas estelares se tocam, na estaca precisa onde pela primeira vez colidiram nossas vidas..."
segunda-feira, 11 de julho de 2016
segunda-feira, 6 de junho de 2016
Desejo
Que eletricidade é essa
Que eletricidade é essa
A que escapa pelos poros
E que palavra nenhuma
É capaz de apresar?
Que faz agitar o ânimo
Como faz o sol todo-poderoso
Erguendo seu fausto
Por detrás do cinza
Dos prédios apinhados?
Que algo esse, que agride o corpo
Num afã de raiz,
Sem caber numa palavra indigente:
Desejo?
quinta-feira, 2 de junho de 2016
Trecho de A Beleza rente ao chão
“(...) — 'Se o amor tem seus ricos? Ele
é seus riscos, e nada muito além disso! Sem o risco, sem um mergulho no torvelinho
de uma desgraça iminente, nunca se pode amar ou ser amado um dia. E por um
acaso o último ato de toda grande história de amor legada a nós até hoje não
foi encenado também em meio a uma grande tragédia? E que pesem o caso dos
amantes que estão ligados uns aos outros de tal modo que a separação causada
pela morte de um inspira no outro um único desejo lúgubre de também deixar a
vida. Para o que vive é insuportável seguir sem aquele que se foi — restando a
ele vagar pelo mundo como se um órgão vital lhe tivesse sido amputado ainda em
vida:
“Ó, bem amada, aspira-
me
de um hausto só,
para que adormeça
para que amar possa.”
Todos esses amantes foram tão
irremediavelmente transfigurados, tão violentamente tocados por um sentimento
que a maioria esmagadora dos mortais jamais conhecerá um dia, que também seria
demais esperar que ao final saíssem ilesos. O que se exige dos amantes é que
se transponha o fosso — e a maioria esmagadora das pessoas vivem e morrem sem
nunca transpor. Estão todas tão mesquinhamente preocupadas em salvar o próprio
couro, tão atoladas em seus estúpidos afazeres, tão aferradas ao seu heroísmo
miúdo — que nunca sairão de si mesmas, nunca saltarão o fosso. Transpor o fosso
pela paixão ao risco — um imperativo perigoso contra o qual é inútil erguer a
voz nas coisas do amor, mesmo porque o Amor é um deus caprichoso infenso ao
cálculo. Algo feito para os que foram moldados em barro ruim. Mas, é possível
levar uma vida sem nunca amar ou ter sido amado por alguém? Sim, e lá fora
estão todos que não me deixam mentir! As pessoas passam pelo mundo sem jamais
terem uma experiência estética autêntica, sem nunca terem transcendido o plano
raso das emoções vulgares: o mesmo é válido para o amor — e não há nada de
anormal nisso! E nesses casos, ainda se pode dizer que levaram uma vida
inautêntica? Ora, e quem sou eu para dizer que sim? Mas uma vida besta,
talvez... Ai de mim! Em todo caso, ou se
vive o amor — por amor risco — ou não se vive. Há uma escolha a ser feita aqui'.
Com isso eu esperava um efeito
devastador em Larissa! Acabava de lhe passar um galanteio que extraíra do mais
recôndito do desespero. Mas também essa foi uma doce ilusão enquanto durou —
uma cartada de principiante. Martirizei-me no íntimo por não ter contado com a
mais que esperada indiferença de Larissa. Afinal, por que isso tudo a impressionaria?
Por Deus, Larissa era só uma maldita de uma criatura vulgar! Eu podia
devassar-lhe diante dos olhos todos covis da alma, podia eu ser o maior
poeta vivo a lhe cantar os segredos mais sublimes e imperscrutáveis; podia eu mesmo ser o maior filósofo sobre a terra a compor-lhe o mais extraordinário libelo confessional
que jamais qualquer homem sob o sol tivera nas mãos, e ainda sim nada eu agitaria na placidez de sua alma ruminante! Eu estava profundamente devastado,
me sentia tão desamparado nos cumes gélidos de minha própria impotência que
desatei a entornar meu whisky em poderosas
goladas que me desciam rasgando a garganta no ritmo de aboladas frenéticas. Devasta-me
reconhecer que qualquer coisa mais à toa poderia atrair a paixão e a boa
disposição de Larissa: um solo de guitarra, uma piada ou um gracejo tolo — qualquer dessas coisas que
já não eram mais da prerrogativa de um sujeito como eu, alguém que fora expulso
para sempre a ponta pés do paraíso da plenitude das vacas. Eu era um cara de
espírito, por Deus, eu era! Tonteei de bêbado e desatei a chorar como uma
criança desamparada. Os soluços me saiam em bom som, rasgando o pano silencioso
da noite que então fazia.
Eu imaginava, com grande lástima,
toda dor e humilhação com as quais tiveram que conviver, em registo
extemporâneos, os grandes espíritos para que ao final recompensassem suas
ingratas e vulgares amantes com a guirlanda da imortalidade. Penso em nomes imorredouros
lembrados até hoje como o de Charlotte Buff, por quem Goethe — cuja
natureza, segundo Nietzsche, era tal como a do bronze — rastejou e lambeu o chão
em que pisaram os pezinhos miúdos dessa cortesã delicada que teria inspirado a
heroína exangue de Werther. Ou de Mme. Dembowski, pelas mãos de cuja rapariga, Stendhal, segundo confessa o
próprio escritor, teria vivido o evento mais fantástico e torturante de sua
vida. Presença vista de forma onipresente em livros como Ernestine e em seu barroco De
l’amour. Todas elas fêmeas que com uma fria e inacreditável indiferença
impingiram infinitas agruras a esses grandes e célebres sofredores. Que evento
desmedidamente extraordinário que esses nomes nos sejam lembrados até hoje — que a
inútil e diminuta existência dessas criaturas tenazes por vezes tenha movido
moinhos na diligência milimétrica de um homem de gênio. Que miséria vê-los
aferrados à loucura de exprimir, em grandes linhas, uma ideia poética sem
sequer suspeitarem que essa mesma ideia neles era infinitamente maior que a vulgaridade real de todas essas mulheres ingratas. Esses escravos românticos, seivas musguentas do tutano do lirismo, com suas forças drenadas pela grandeza e estupidez de uma missão que os sobrepujava em força; homens tragados pela necessidade de dar expressão a um afeto
irracional desperto pela força um quadril bem delineado — de cuja realização
neste mundo dependiam seu orgulho e integridade. Mas frente a todas havia
Larissa, a mais vulgar dentre elas! Jamais moveria uma fagulha do meu
veio por ti, Larissa. Nunca recompensarei a peçonha inoculada pelos teus lábios
rosados e opulentos. Jamais te daria um livro, minha ingrata Larissa!"
domingo, 15 de maio de 2016
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016
[Prólogo]
Por que todos lá fora estão mortos?
Terá um grande dilúvio coberto a tudo em arrebentos de ondas revoltosas enquanto
eu dormia? Porque o que vejo lá
fora são corpos sem vida, são corpos que boiam em ritmo letárgico de sobe e
desce, singrando vagalhões cujo rumo é ditado por uma vontade que os transcende
em força... vejo sorrisos fáceis em rostos vazios, vejo corpos tragados
por correntezas ruidosas que vão trovejando por entre um frenesi de luzes e
vitrines... vejo os corpos dos bêbados atracados nos botecos, e eles estão provocando
as mocinhas que vão passando à deriva com suas vozes esganadas e suas carnes à
mostra. Os corpos estão descrevendo círculos sobre um torvelinho desvairado, e
no centro do giro está um abismo que vai tragando tudo como um ralo de privada.
— O caso é que todos estão mortos, e boiam, e giram...
Mas que fantástico acaso terá
sido esse, o que cobrira a todos com vagalhões impetuosos? O que terá se passado para
que se fosse assim reduzida a nada, o que outrora foi uma raça valorosa de heróis
ditosos? De homens que por todos os quadrantes da Terra fizeram chiar, com os
nervos lhes retesando os calcanhares, a areia debaixo dos pés? O que terá, por
fim, vergado a espinha desses homens orgulhosos que outrora atravessaram tantos
mares como jamais se conhecera tão indômitos, tão povoados de perigos e
aventuras? ... E tão vivos estavam aqueles senhores da terra e dos mares! Tão
feliz, essa raça temida, crispando os mares com suas poderosas velas içadas — fazendo
subir aos céus o fumo e o canto que entoava a deuses que tanto a amavam... E nos causa inveja o quanto eram amados, esses homens ... hoje os deuses já não lhes sopram mais seu divino bafo conselheiro, já não mais elegem para o seu séquito os homens mais
valorosos sobre a terra... isso já não mais importa! Agora faz um frio sem
consolo, e nós trememos. Tudo está reduzido a um frio que regela as paredes das
vielas cobertas de musgo e umidade, um frio sem sentido que nos faz espreitar os
corpos boiando do lado de fora com uma emoção que não nos cabe no peito, que nos faz
quedar o ânimo por detrás de uma vidraça engordurada. Detrás da qual se observa a que fomos reduzidos, enquanto se bica uma
xícara de café.
domingo, 31 de janeiro de 2016
[...]
Saio
da estação do metrô. Uma cigana prenha pragueja contra mim depois de eu lhe
recusar uns trocados. Ela veste um bustiê com rendas nos ombros, de cor
vermelha e de um puído lastimável, ao fim do qual se projeta sua pança inchada
como um tumor maligno. Repousa dentro dela um feto de
ponta cabeça se alimentando de suas vísceras num silêncio de morte. Sem qualquer desenvoltura,
consigo aos poucos me desembaçar da cigana e vou cambaleando em direção à
catedral da Sé. Um senhor fedendo a suor velho, que junto de outros homens
assistia absorto a um terceiro berrar em êxtase alguns versículos do
apocalipse, serra os punhos em minha direção e me esbraveja depois de tê-lo
esbarrado nos ombros. Dou alguns passos trôpegos para trás e tomo o centro do
pátio que dá acesso à catedral, em cuja cada uma das laterais está prostrada
uma fileira de palmeiras imponentes que se mantêm continentes como poderosas
sentinelas — mais ou menos ao modo dos ciprestes ladeando as caminhadas
matinais de Strindberg no cemitério de Montparnasse. Elas giram em torno de minhas
têmporas em ritmo alucinante me deixando em estado de vertigem. Sentado sob a
sombra da última das sentinelas, em meio ao enxame de pernas que por ele passa
de forma indiferente na altura dos olhos, está um indigente desdentado da barba
encardida a brandir uma caneca de alumínio que de dentro faz tilintarem suas
moedas miúdas em uma cadência de enlouquecer. Mais ao fundo, com suas vestes
eclesiásticas, dois padres entabulam conversa entre si no patamar da escadaria
que dá acesso à nave principal da catedral. Posso ver efluir de suas bocas, aos golfos,
dois mil anos de sacrossanta estupidez — o que os faz parecer tanto mais
miseráveis em comparação ao indigente que de sua caneca faz repicarem os sinos
da demência.
Desço
em direção à praça do correio e por toda parte os prédios se acotovelam em
fortalezas acinzentadas. O céu se esconde por detrás das paredes de concreto
que ao meu redor vão se erguendo até se perderem de vista. Todos estão
miseravelmente suscetíveis a menor perturbação atmosférica. Em vagas sucessivas, o sol desprende do alto seu fogo que faz arder o asfalto como uma
grelha. As ondas escaldantes emanadas buscam ganhar os ares, mas são impedidas
pelas impenetráveis paredes de concreto e tanto mais obstruídas pela colisão
com as moléculas maciças dos gases que por toda parte são lançados aos jorros:
dos carburadores dos carros, das chaminés dos restaurantes e dos cafés, do cu
das velhas, do cigarro dos motoristas de ônibus, do cachimbo dos usuários de crack — mergulhando tudo num caldo
sólido, árido e borbulhante. Transeuntes dos mais diversos —
vendedores ambulantes, policiais, mendigos, burocratas, profissionais liberais
—, todos com suas caras cobertas de gordura, vão escorrendo pelas artérias
que se desenham em meio aos prédios apinhados como por um cano de privada.
Entram também em cena, no espetáculo na nulidade, os ventos tomados por acessos
claustrofóbicos que os fazem correr com furor pelas vielas em busca de algum
escape. Vão varrendo, com a violência e o capricho de um deus todo poderoso,
tudo o que se lhes encontre adiante —: o pó, o lixo, a fumaça, a podridão, o
cheiro acre, o miasma, as guimbas de cigarros, um pedaço de unha de mendigo,
uma cédula amassada, a vertigem, a demência dos loucos, o crime na mente dos
batedores de carteira, os sonhos dos operários.
Desço
até a rua X e finalmente estou no prédio de Cecília. Ela me espera no portão de
entrada com seu porte deprimente, me fitando de cima de seus ombros caídos sobre uma postura arqueada que em seu conjunto era tanto mais
prejudicada na aparência pelo grande volume das banhas flácidas que lhe
percorriam o ventre, como um cinturão de boxeador, e que lhe escorriam também das
ancas, dando a ela um volume exagerado nos quadris. Isso, somados aos dentes redondos
de sua arcada superior que lhe escapam pela boca e que parecem infundir ânimo
sempre renovado à estupidez de todo o conjunto daquele seu rosto redondo. Pelos
diabos, na noite anterior Ceci não parecia tão mal! Mas, apartado agora da
mágica embelezadora que o vinho faz descer sobre os olhos, Ceci parecia feia de
doer nos bagos! Pensei várias vezes em correr dali, mas estava enlevado demais
para recuar! A curiosidade em ver de perto o brilho fulgurante da vingança
rebentar de seus olhos, como na explosão que dá vida a uma estrela
recém-nascida, me envolvia em seus tentáculos como um polvo retendo sua presa.
Todos os predicados humanos me escaparam pelos poros ao ver Ceci com sua cabeça
redonda e seu porte deplorável a me esperar no portão, mas deixara o mais
destrutivo deles agarrado em mim como um molusco esfomeado. Por isso eu tinha
que seguir. Sacudi de mim os vermes da má vontade e adentrei ao vestíbulo do
prédio em sua companhia. Restava-me, então, a sensação de que eu era um médico cirurgião
caminhando ao lado de uma maca pelos corredores frios de um complexo operatório
ao fim do qual estava a sala de cirurgias...
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