E por falar em existência, é também contra Deus que escrevo. O que fere à ótica é ninguém se aperceber de que, aquilo que faz de Deus receptáculo de toda grandiosidade, de toda cobertura de glória e louvores que lhe imputamos, não é senão, justamente, o dado que devia fazer dele o mais odioso dos seres. Se o que nos diferencia de Deus é essa incapacidade, absoluta, em dar existência às coisas, isso acaba por nos colocar numa posição surpreendentemente superior em relação a Ele. A existência é qualquer coisa de absurda, e isso inclui, obviamente, a vida. Se eu fosse Deus jamais conceberia qualquer crispação de vida! Não vede que a existência é um absurdo? E por que não haveria de sê-lo?! Dê-me uma resposta em definitivo e vos aponto a própria impostura! Essa minha lucidez, essa minha nauseante lucidez, é um brinquedo colorido e perigoso... E é por isso que isto é escrito contra Deus. É escrito contra Deus porque prefiro a excitação de sentimentos tumultuosos, do perigo, à languidez do oceano blue da paz teísta! — É escrito contra deus e contra os rebentos de qualquer deidade! Contra a sanha platônica inoculada! Este escrito é um objeto de gabinete destinado à implodir as criaturas de dentro para fora!, à implodir os Estados nacionais, à ser a mais letal que quaisquer das armas mais ignominiosas!: — A vida nos é dada como um fardo que somos coagidos a carregar; entretanto, quando ela, por um milagre, é convertida no maior dos presentes, quando de seu desvelamento em uma beleza absoluta, quase insuportável, nós, com olhos oscilantes, percebemos que ela lentamente nos escapa pelos dedos, num fluxo gélido, irracional e incontido. E, diante do devir, se vê uma criatura apodrecendo, no escuro, bebendo de um cálice suntuoso e estúpido, preenchida, a criatura estupida, até os vãos, por uma completude disparatada de nada! (sim, o nada é! E isso demonstra a estupidez e imperfeição do nosso supremo artífice!) Tudo isso enquanto a beleza insiste, ardendo, ali. A vida é qualquer coisa de absurda, logo, um supremo artífice que proporcione a existência é um serzinho menor, egoísta e digno objeto do mais apaixonado ódio! E como dito, pelo empuxo da absurdidade, sou lançado para além de onde é possível vislumbrar o quão sou superior a Ele. E é exatamente por isso que o homem foi capaz de assassiná-lo! E é exatamente por isso que podemos, hoje, neutralizar a sanha platônica inoculada! E é exatamente por isso que Nietzsche é sublime!