"Todos os pedagogos eruditos são unânimes em afirmar que as crianças não sabem porque desejam determinada coisa; mas também os adultos, como as crianças, andam ao acaso pela terra, e, tanto quanto elas, ignoram de onde vêm e para onde vão; como elas, agem sem propósito determinado e, igualmente, são governados por biscoitos, bolos e varas de marmelo: eis uma verdade em que ninguém quer acreditar, embora ela seja óbvia, no meu entender."
Os sofrimentos do jovem Werther - J.W.Goethe.
Era noite. Sempre é. Caminhávamos sobre a Av. Paulista, eu e mais alguém. Quem, não me lembro exatamente: — sei que tinha os ombros largos, um caminhar pesado, e um narigão ferrado de sarraceno. Talvez trouxesse consigo um nome maometano de batismo: — não estou certo. Por ocasião dos cortejos de final de ano, vencíamos cada quarteirão em meio ao brilho frenético, e nada sutil, das luzes natalinas. Carregávamos cada um uma long neck, ansiávamos por quebrar à direita na rua Augusta, descer até o segundo círculo do Inferno de Dante para, por fim, depararmo-nos com as putas: as Semíramis, as Helenas, as Cleópatras, todas pintadas de escarlate em seus vestidos tubinho. — Ah!, aquilo para nós ocupava o último degrau no escalão da sublimidade: era mais arrebatador que um pão com manteiga no café da manhã! — Mas antes da queda era preciso rastejar por entre os anjos trajados da própria decência em seus corpos bem nutridos, com suas esposas e filhos muito corados, caminhando a passos lentos entre os bibelôs natalinos. Havia ali enormes cajados multicoloridos; bichos de pelúcia colossais; renas do narigão vermelho, que mais parecia uma glande túmida prestes a ejacular. Eram anjos, pois só assim se explicaria o riso profundo e apatetado que deles efluía. Orbitavam com graça as luzes natalinas, assim como o fazem as moscas nas noites de verão. Tudo isso, muito embora, os fins que engendrassem atividade nas moscas, e as pusessem a orbitar tão obstinadamente seu estúpido deus de vidro e carbono, fossem os mesmos que pusessem os anjos a circundar luzinhas no seio da noite. Eu mesmo ia a pique no mesmo barco. O Eu, os anjos, as moscas e as lâmpadas, girando na circunferência da vida e no eixo do giro o eterno mistério intangível. O Eu, os anjos, as moscas, as lâmpadas, e o eixo, cada um de nós um tipo de divindade! — Os cabelos de suas esposas e de seus filhos eram tão macios que alijavam até mesmo os sonhos! Ofuscavam, inclusive, o brilho natalino que era o próprio objeto de sua peregrinação. Eram, realmente, muito decentes, mas nada podia ser dito de sua beleza, porque não dispunham de rostos. A figura que eu trouxera ao meu lado, acredito que também não o dispusesse. Carregava seu narigão ferrado no centro da cara e só. Talvez tivesse ainda uma verruga nas proximidades do supercílio. Talvez. Talvez sequer tivera existido alguém ao meu lado por aquelas bandas... estou confuso. As luzes natalinas tinham um poder interessante de imbecilizar as pessoas.