domingo, 6 de maio de 2012

No meio do caminho


No meio do caminho não tinha uma pedra;
não tinha uma pedra no meio do caminho.
Tinha mulheres, e cerveja.
Tinha mulheres, e cigarros.
Tinha um muxoxo explodindo do palato,
como explodem estrelas, aos milhares,
nos eternamente indiferentes
vagalhões do espaço.

Nunca me esquecerei desse acontecimento,
— e a ninguém jamais será factível,
que no meio do caminho
tinha a fúria centrípeta
das flores orvalhadas.
Tinha mulheres, e cerveja.
Tinha mulheres e cigarros.


domingo, 22 de abril de 2012


Por que não fazer da dor, das privações de todos os tipos, da solidão, da rispidez expressa na Criação, — que parece não incluir, em seu próprio projeto cosmológico, a felicidade humana , — a face mais sublime da alegria, cuja necessidade impõe que disso tudo não se possa prescindir, naquilo que se apresenta como a possibilidade única de vida mais elevada —: a ininterrupta superação de si? A sereno-jovialidade do Belo aponta para a mais fraudulenta apologia da alegria, justamente por dispensar a dor, sua correlata, sua irmã genética. A alegria que dispensa a dor é o brado oco de uma vitória de Pirro! Sou eu quem escolhe o difícil; — ao seu bel-prazer!


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Pela última vez...


Pela última vez
ela me derramou na camisa
seus dedos de cisma;
e volvendo o rosto
num instante,
de chispa de luar,
deixou no ar
um arco descrito de lágrimas.

Desembainhei o espadim do despeito
e dei-o com as duas mãos no peito,
e rezei o credo dos desgarrados,
e — de punho cerrado —,
limpei do queixo,
um vestígio
de baba de Caim.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A genealogia do erro.


Magia! Assim como se debate a lebre que o mágico empunha, ao sacá-la do fundo da cartola, as palavras também se me afiguram com as mesmas silhuetas e envergadura da magia: — uma vez desprendidas da caixa craniana, guarida cálida de todo o Ser, elas vão rompendo o cárcere, recebem acabamento último no palato, e vão ganhando os espaços; com elas são erigidas a poesia, o mito, a filosofia, a ciência, e por fim, o universo inteiramente submetido ao Real! Oh, palavras trepadas no trapézio da fraude! — O universo: rebentação da fraude! Tudo me dói, mas me convulsiona o engano!; me devasta mil vezes o peito! A genealogia do equívoco: — da sopa primordial aos primeiro protoplasmados, de sua pululação ao sono displicente da natureza — desabotoa-se um órgão de proporções exageradas, que, por sua vez, é insuflado nas têmporas de uma criaturazinha, na poeira das poeiras. Um órgão ridículo e uma empresa de mal gosto: — Natureza, em seu ministério das Mãos primevas, quero ver se resiste ao meu dedo em riste! — O Real: tecido urdido por contrações regulares, fluxo e refluxo de linfa, pulsos, decibéis. Estímulos de matéria e sangue, afeitos da parcela menos nobre do animal homem, e que se lhes assenhoraram, inflando o mundo espectral das representrações, e transformando essa fração de carne e de consciência em o Real, em o Universo. A consciência como bibelô da criação? – Não! A consciência: — rebentação do acidente da matéria. Eis aqui o mais recuado ponto de inflexão; eis o Gênesis dos Gênesis.


sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Odeio nela.


O que eu odeio nela,
é o que de sua presença fica:
um tal de pôr em fuga a dor,
— minha etérea amante e amiga!

sábado, 7 de janeiro de 2012

Da ignávia.


Se assevera, da psicologia do crucificado:

"Questi non hanno speranza di morte,
e la lor cieca vita è tanto bassa,
che 'nvidïosi son d'ogne altra sorte.

Fama di loro il mondo esser non lassa;
misericordia e giustizia li sdegna:
non ragioniam di lor, ma guarda e passa.

[...]

Incontanente intensi e certo fui
che questa era la setta d'i cattivi,
a Dio spiacenti e a'nemici sui.

Questi sciaurati, che mai non fur vivi,
erano ignudi e stimolati molto
da mosconi e da vespe ch'eran ivi."¹

Oh!, Cioran, com qual singeleza ressoa, nos espaços vazios, tua sentença!; com qual miséria reluz teu bestial entusiasmo, oh!, artífice de Babel!


1. Dante Alighieri - La divina commedia (Inferno, III, 46-61.)