sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Relato do tempo do Abissal
terça-feira, 20 de abril de 2010
Reminiscência de um 15 de janeiro
Uma noite de janeiro e um segredo de alcova, assim haveria de ser. Assim haveria de ser quando eu cravara o dedo em sua campainha e dera de cara com seu formoso rosto, de tez reverberante, olhos frios como a prata e claros, que flutuavam uma tristeza de quem sabe. Assim adentrei ao cômodo, exultante, a disparar recordações suaves e observando formalidades dispensáveis, mas que se fazem verossímeis à excitação de um reencontro há muito esperado. Fumamos cigarros em meio à permuta de cortesias, vestimos casacos, demos de ombros àquele ninho tépido e pressago, e mergulhamos num éter específico que preenchia os vãos da noite. À mesa, comemos e bebemos e tudo era cintilante imersos naquela atmosfera de discos de pizza, acre e tabaco. Enquanto ela vivia, eu, sôfrego, abocanhava palavras e resíduos que dela transverberavam. Quantas máscaras e ríctus em sua cara! Ah, se a poesia me permitisse alçar maiores vôos... lha encerraria num mundo líquido, afastaria de nós o sólido de rijo cenho, assim, amiúde. Vasto era o meu querer e curto era o trajeto que nos levaria de volta à alcova.
Quando ficara atrás de nós, a robusta porta que vedava sua guarida de egípcia, cobriu-se o teto com estrelas da volúpia e nosso axis mundi se fez fugidio. E lá estava ela, mito sobre os lençóis, eu alguém-nada, um sonho de poeta. Verti meu corpo sobre o seu e, escondido os meus dedos nos seus cabelos pálidos, busquei ávido sua boca. Oh, descontrole dos meus braços! Notável inabilidade em querer tê-los elevados a enésima potência! Doce seiva sorvida dos seus jovens seios túmidos! Assim como doce era o universo dos detalhes que se perderam no absurdo. Nossos corpos eram ondas por onde navegavam notas musicais. Seus braços, arroios sinuosos e convulsos que desaguavam em fúria em meu leito-dorso. Ah, querer mais descomedido! E assim que as águas revoltosas se desfizeram em calmaria, sem dono, ela boiou sobre os sulcos dos lençóis e sorriu até dormir.
Ela dormia numa entrega autêntica e completa. Um abandono cruel que me despedia da moderação, permitindo-me a catação de cada fibra que arranjava seu corpo. Desgraçado de mim! Catava cada detalhe, mas não com a serenidade da lira, como se esperava convir do espírito, e sim, com uma perturbação cruel! Queria eu coser todos aqueles detalhes às paredes da memória! Afinal, para quem haveria de brilhar esses olhos glaucos amanhã? Ah, se ao menos em ti eu não dissolvesse! Havia ali um medo maior que o de tê-la; amá-la. Encimando o traste observava contemplativo meu estado miserável, o Tolstoi que eu trouxera na mochila. Talvez minha vida espiritual nem lhe causasse ressonância alguma n’alma, Pessoa, Rimbaud, Hilst... Ah, de nada importava! Tudo estava aos pedaços e sendo deglutidos por aqueles pequenos lábios entreabertos ao abandono. E assim, colada sua boca à minha desordem, se manteve até que eu caísse de bruços derrotado pelo sono.
Tolstoi jazia abandonado tocado pelos raios vacilantes da manhã. A vida me pôs de pé. Abandonei aquele cômodo como quem acorda de um sonho bom que fortuitamente nos damos o direito de sonhar. Hoje o caminho que persigo é um vestígio de homem em sua estrada. O que há são paredes em mim. E um friez de ruas duras.
Quando ficara atrás de nós, a robusta porta que vedava sua guarida de egípcia, cobriu-se o teto com estrelas da volúpia e nosso axis mundi se fez fugidio. E lá estava ela, mito sobre os lençóis, eu alguém-nada, um sonho de poeta. Verti meu corpo sobre o seu e, escondido os meus dedos nos seus cabelos pálidos, busquei ávido sua boca. Oh, descontrole dos meus braços! Notável inabilidade em querer tê-los elevados a enésima potência! Doce seiva sorvida dos seus jovens seios túmidos! Assim como doce era o universo dos detalhes que se perderam no absurdo. Nossos corpos eram ondas por onde navegavam notas musicais. Seus braços, arroios sinuosos e convulsos que desaguavam em fúria em meu leito-dorso. Ah, querer mais descomedido! E assim que as águas revoltosas se desfizeram em calmaria, sem dono, ela boiou sobre os sulcos dos lençóis e sorriu até dormir.
Ela dormia numa entrega autêntica e completa. Um abandono cruel que me despedia da moderação, permitindo-me a catação de cada fibra que arranjava seu corpo. Desgraçado de mim! Catava cada detalhe, mas não com a serenidade da lira, como se esperava convir do espírito, e sim, com uma perturbação cruel! Queria eu coser todos aqueles detalhes às paredes da memória! Afinal, para quem haveria de brilhar esses olhos glaucos amanhã? Ah, se ao menos em ti eu não dissolvesse! Havia ali um medo maior que o de tê-la; amá-la. Encimando o traste observava contemplativo meu estado miserável, o Tolstoi que eu trouxera na mochila. Talvez minha vida espiritual nem lhe causasse ressonância alguma n’alma, Pessoa, Rimbaud, Hilst... Ah, de nada importava! Tudo estava aos pedaços e sendo deglutidos por aqueles pequenos lábios entreabertos ao abandono. E assim, colada sua boca à minha desordem, se manteve até que eu caísse de bruços derrotado pelo sono.
Tolstoi jazia abandonado tocado pelos raios vacilantes da manhã. A vida me pôs de pé. Abandonei aquele cômodo como quem acorda de um sonho bom que fortuitamente nos damos o direito de sonhar. Hoje o caminho que persigo é um vestígio de homem em sua estrada. O que há são paredes em mim. E um friez de ruas duras.
domingo, 28 de fevereiro de 2010
Metafísica da besteira qualquer
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