quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Pela última vez...


Pela última vez
ela me derramou na camisa
seus dedos de cisma;
e volvendo o rosto
num instante,
de chispa de luar,
deixou no ar
um arco descrito de lágrimas.

Desembainhei o espadim do despeito
e dei-o com as duas mãos no peito,
e rezei o credo dos desgarrados,
e — de punho cerrado —,
limpei do queixo,
um vestígio
de baba de Caim.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A genealogia do erro.


Magia! Assim como se debate a lebre que o mágico empunha, ao sacá-la do fundo da cartola, as palavras também se me afiguram com as mesmas silhuetas e envergadura da magia: — uma vez desprendidas da caixa craniana, guarida cálida de todo o Ser, elas vão rompendo o cárcere, recebem acabamento último no palato, e vão ganhando os espaços; com elas são erigidas a poesia, o mito, a filosofia, a ciência, e por fim, o universo inteiramente submetido ao Real! Oh, palavras trepadas no trapézio da fraude! — O universo: rebentação da fraude! Tudo me dói, mas me convulsiona o engano!; me devasta mil vezes o peito! A genealogia do equívoco: — da sopa primordial aos primeiro protoplasmados, de sua pululação ao sono displicente da natureza — desabotoa-se um órgão de proporções exageradas, que, por sua vez, é insuflado nas têmporas de uma criaturazinha, na poeira das poeiras. Um órgão ridículo e uma empresa de mal gosto: — Natureza, em seu ministério das Mãos primevas, quero ver se resiste ao meu dedo em riste! — O Real: tecido urdido por contrações regulares, fluxo e refluxo de linfa, pulsos, decibéis. Estímulos de matéria e sangue, afeitos da parcela menos nobre do animal homem, e que se lhes assenhoraram, inflando o mundo espectral das representrações, e transformando essa fração de carne e de consciência em o Real, em o Universo. A consciência como bibelô da criação? – Não! A consciência: — rebentação do acidente da matéria. Eis aqui o mais recuado ponto de inflexão; eis o Gênesis dos Gênesis.