terça-feira, 22 de setembro de 2015



Se querer é pecado, não bastava não nos ter feito para o querer? Ou é tão grande e sagrada tua volúpia por dominação, por potência, que não és capaz de privar a ti mesmo desse divino gozo que é o de nos ver vacilar, envergonhados, frente aos vales onde jorram leite e mel? ― Tudo isso não é lama para chafurdar? O que dizes dos olhos que suplicam por mais, infinitamente, mais vida? Por que censuras os quereres impudicos? Será que, por um acaso, te divertes com a fúria dos desejos, dos desregramentos que fizera, tu mesmo, habitar em nossos corpos? (Será também,o corpo, algum dia, um divino rebelde a se vingar e a envergonhar os deuses?) Não! ― Esse riso só seria digno de um Malin Génie, de um Deus superior, indecoroso, folião, para além do bem e mal. Qual, então, o sentido profundo, subterrâneo, do imperativo "tu deves querer as coisas do Céu"? Qual, oh, Deus?!


domingo, 25 de janeiro de 2015



A intolerância religiosa é uma doença das religiões abraâmicas que pegou mesmo. Na antiguidade, os deuses conviviam pacificamente, eram permutáveis entre as comunidades (os deuses também tiveram sua Idade de Ouro ― Roma era o Grande Jardim em que Ísis e Vênus giravam de mãos dadas; e se alguns cultos ali foram proibidos, e se mesmos os cristãos foram ali perseguidos, é porque entre os romanos religião e civitas se misturavam). Isso tudo até se erguer o grandão, o Deus cosmopolita de todas as tribos, para quem uma coisa só se mostrava mais poderosa que a si mesmo: a tolerância! Josué, em Siquém, exortava a linhagem de Abraão a condenar o que era uma grande virtude entre os antigos ― sua tolerância com os deuses estrangeiros: "Agora, joguem fora os deuses estrangeiros que estão com vocês e voltem-se de coração ao verdadeiro Deus de Israel!". Trocando em miúdos, "o meu Deus só pode ser verdadeiro se o teu for falso, e nem mesmo Deus é tão poderoso a ponto de fazer com que a verdade seja divisível: dois deuses não podem falar a mesma verdade; ― o imperativo do meu Deus deve autorizar em absoluto, do contrário, ele nem pode ser tão grandão assim”. Bastou o tempo para que os preconceitos dos sacerdotes se enraizassem ― séculos de pregações, de deturpações, de usurpações, e o resultado é esse: um santo católico não pode conviver pacificamente com um orixá nem em cima de uma mesa. Por isso é que dificilmente haverá plena tolerância religiosa um dia (principalmente entre os mais suscetíveis). Parece que o relativismo é mesmo o grande coveiro de Deus, depois da tradição abraâmica!