[Prólogo]
Por que todos lá fora estão mortos?
Terá um grande dilúvio coberto a tudo em arrebentos de ondas revoltosas enquanto
eu dormia? Porque o que vejo lá
fora são corpos sem vida, são corpos que boiam em ritmo letárgico de sobe e
desce, singrando vagalhões cujo rumo é ditado por uma vontade que os transcende
em força... vejo sorrisos fáceis em rostos vazios, vejo corpos tragados
por correntezas ruidosas que vão trovejando por entre um frenesi de luzes e
vitrines... vejo os corpos dos bêbados atracados nos botecos, e eles estão provocando
as mocinhas que vão passando à deriva com suas vozes esganadas e suas carnes à
mostra. Os corpos estão descrevendo círculos sobre um torvelinho desvairado, e
no centro do giro está um abismo que vai tragando tudo como um ralo de privada.
— O caso é que todos estão mortos, e boiam, e giram...
Mas que fantástico acaso terá
sido esse, o que cobrira a todos com vagalhões impetuosos? O que terá se passado para
que se fosse assim reduzida a nada, o que outrora foi uma raça valorosa de heróis
ditosos? De homens que por todos os quadrantes da Terra fizeram chiar, com os
nervos lhes retesando os calcanhares, a areia debaixo dos pés? O que terá, por
fim, vergado a espinha desses homens orgulhosos que outrora atravessaram tantos
mares como jamais se conhecera tão indômitos, tão povoados de perigos e
aventuras? ... E tão vivos estavam aqueles senhores da terra e dos mares! Tão
feliz, essa raça temida, crispando os mares com suas poderosas velas içadas — fazendo
subir aos céus o fumo e o canto que entoava a deuses que tanto a amavam... E nos causa inveja o quanto eram amados, esses homens ... hoje os deuses já não lhes sopram mais seu divino bafo conselheiro, já não mais elegem para o seu séquito os homens mais
valorosos sobre a terra... isso já não mais importa! Agora faz um frio sem
consolo, e nós trememos. Tudo está reduzido a um frio que regela as paredes das
vielas cobertas de musgo e umidade, um frio sem sentido que nos faz espreitar os
corpos boiando do lado de fora com uma emoção que não nos cabe no peito, que nos faz
quedar o ânimo por detrás de uma vidraça engordurada. Detrás da qual se observa a que fomos reduzidos, enquanto se bica uma
xícara de café.