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Saio
da estação do metrô. Uma cigana prenha pragueja contra mim depois de eu lhe
recusar uns trocados. Ela veste um bustiê com rendas nos ombros, de cor
vermelha e de um puído lastimável, ao fim do qual se projeta sua pança inchada
como um tumor maligno. Repousa dentro dela um feto de
ponta cabeça se alimentando de suas vísceras num silêncio de morte. Sem qualquer desenvoltura,
consigo aos poucos me desembaçar da cigana e vou cambaleando em direção à
catedral da Sé. Um senhor fedendo a suor velho, que junto de outros homens
assistia absorto a um terceiro berrar em êxtase alguns versículos do
apocalipse, serra os punhos em minha direção e me esbraveja depois de tê-lo
esbarrado nos ombros. Dou alguns passos trôpegos para trás e tomo o centro do
pátio que dá acesso à catedral, em cuja cada uma das laterais está prostrada
uma fileira de palmeiras imponentes que se mantêm continentes como poderosas
sentinelas — mais ou menos ao modo dos ciprestes ladeando as caminhadas
matinais de Strindberg no cemitério de Montparnasse. Elas giram em torno de minhas
têmporas em ritmo alucinante me deixando em estado de vertigem. Sentado sob a
sombra da última das sentinelas, em meio ao enxame de pernas que por ele passa
de forma indiferente na altura dos olhos, está um indigente desdentado da barba
encardida a brandir uma caneca de alumínio que de dentro faz tilintarem suas
moedas miúdas em uma cadência de enlouquecer. Mais ao fundo, com suas vestes
eclesiásticas, dois padres entabulam conversa entre si no patamar da escadaria
que dá acesso à nave principal da catedral. Posso ver efluir de suas bocas, aos golfos,
dois mil anos de sacrossanta estupidez — o que os faz parecer tanto mais
miseráveis em comparação ao indigente que de sua caneca faz repicarem os sinos
da demência.
Desço
em direção à praça do correio e por toda parte os prédios se acotovelam em
fortalezas acinzentadas. O céu se esconde por detrás das paredes de concreto
que ao meu redor vão se erguendo até se perderem de vista. Todos estão
miseravelmente suscetíveis a menor perturbação atmosférica. Em vagas sucessivas, o sol desprende do alto seu fogo que faz arder o asfalto como uma
grelha. As ondas escaldantes emanadas buscam ganhar os ares, mas são impedidas
pelas impenetráveis paredes de concreto e tanto mais obstruídas pela colisão
com as moléculas maciças dos gases que por toda parte são lançados aos jorros:
dos carburadores dos carros, das chaminés dos restaurantes e dos cafés, do cu
das velhas, do cigarro dos motoristas de ônibus, do cachimbo dos usuários de crack — mergulhando tudo num caldo
sólido, árido e borbulhante. Transeuntes dos mais diversos —
vendedores ambulantes, policiais, mendigos, burocratas, profissionais liberais
—, todos com suas caras cobertas de gordura, vão escorrendo pelas artérias
que se desenham em meio aos prédios apinhados como por um cano de privada.
Entram também em cena, no espetáculo na nulidade, os ventos tomados por acessos
claustrofóbicos que os fazem correr com furor pelas vielas em busca de algum
escape. Vão varrendo, com a violência e o capricho de um deus todo poderoso,
tudo o que se lhes encontre adiante —: o pó, o lixo, a fumaça, a podridão, o
cheiro acre, o miasma, as guimbas de cigarros, um pedaço de unha de mendigo,
uma cédula amassada, a vertigem, a demência dos loucos, o crime na mente dos
batedores de carteira, os sonhos dos operários.
Desço
até a rua X e finalmente estou no prédio de Cecília. Ela me espera no portão de
entrada com seu porte deprimente, me fitando de cima de seus ombros caídos sobre uma postura arqueada que em seu conjunto era tanto mais
prejudicada na aparência pelo grande volume das banhas flácidas que lhe
percorriam o ventre, como um cinturão de boxeador, e que lhe escorriam também das
ancas, dando a ela um volume exagerado nos quadris. Isso, somados aos dentes redondos
de sua arcada superior que lhe escapam pela boca e que parecem infundir ânimo
sempre renovado à estupidez de todo o conjunto daquele seu rosto redondo. Pelos
diabos, na noite anterior Ceci não parecia tão mal! Mas, apartado agora da
mágica embelezadora que o vinho faz descer sobre os olhos, Ceci parecia feia de
doer nos bagos! Pensei várias vezes em correr dali, mas estava enlevado demais
para recuar! A curiosidade em ver de perto o brilho fulgurante da vingança
rebentar de seus olhos, como na explosão que dá vida a uma estrela
recém-nascida, me envolvia em seus tentáculos como um polvo retendo sua presa.
Todos os predicados humanos me escaparam pelos poros ao ver Ceci com sua cabeça
redonda e seu porte deplorável a me esperar no portão, mas deixara o mais
destrutivo deles agarrado em mim como um molusco esfomeado. Por isso eu tinha
que seguir. Sacudi de mim os vermes da má vontade e adentrei ao vestíbulo do
prédio em sua companhia. Restava-me, então, a sensação de que eu era um médico cirurgião
caminhando ao lado de uma maca pelos corredores frios de um complexo operatório
ao fim do qual estava a sala de cirurgias...