terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Jingle bells in the bottom of a bottle.



"Todos os pedagogos eruditos são unânimes em afirmar que as crianças não sabem porque desejam determinada coisa; mas também os adultos, como as crianças, andam ao acaso pela terra, e, tanto quanto elas, ignoram de onde vêm e para onde vão; como elas, agem sem propósito determinado e, igualmente, são governados por biscoitos, bolos e varas de marmelo: eis uma verdade em que ninguém quer acreditar, embora ela seja óbvia, no meu entender.
"

Os sofrimentos do jovem Werther - J.W.Goethe.

Era noite. Sempre é. Caminhávamos sobre a Av. Paulista, eu e mais alguém. Quem, não me lembro exatamente: — sei que tinha os ombros largos, um caminhar pesado, e um narigão ferrado de sarraceno. Talvez trouxesse consigo um nome maometano de batismo: — não estou certo. Por ocasião dos cortejos de final de ano, vencíamos cada quarteirão em meio ao brilho frenético, e nada sutil, das luzes natalinas. Carregávamos cada um uma long neck, ansiávamos por quebrar à direita na rua Augusta, descer até o segundo círculo do Inferno de Dante para, por fim, depararmo-nos com as putas: as Semíramis, as Helenas, as Cleópatras, todas pintadas de escarlate em seus vestidos tubinho. Ah!, aquilo para nós ocupava o último degrau no escalão da sublimidade: era mais arrebatador que um pão com manteiga no café da manhã! — Mas antes da queda era preciso rastejar por entre os anjos trajados da própria decência em seus corpos bem nutridos, com suas esposas e filhos muito corados, caminhando a passos lentos entre os bibelôs natalinos. Havia ali enormes cajados multicoloridos; bichos de pelúcia colossais; renas do narigão vermelho, que mais parecia uma glande túmida prestes a ejacular. Eram anjos, pois só assim se explicaria o riso profundo e apatetado que deles efluía. Orbitavam com graça as luzes natalinas, assim como o fazem as moscas nas noites de verão. Tudo isso, muito embora, os fins que engendrassem atividade nas moscas, e as pusessem a orbitar tão obstinadamente seu estúpido deus de vidro e carbono, fossem os mesmos que pusessem os anjos a circundar luzinhas no seio da noite. Eu mesmo ia a pique no mesmo barco. O Eu, os anjos, as moscas e as lâmpadas, girando na circunferência da vida e no eixo do giro o eterno mistério intangível. O Eu, os anjos, as moscas, as lâmpadas, e o eixo, cada um de nós um tipo de divindade! Os cabelos de suas esposas e de seus filhos eram tão macios que alijavam até mesmo os sonhos! Ofuscavam, inclusive, o brilho natalino que era o próprio objeto de sua peregrinação. Eram, realmente, muito decentes, mas nada podia ser dito de sua beleza, porque não dispunham de rostos. A figura que eu trouxera ao meu lado, acredito que também não o dispusesse. Carregava seu narigão ferrado no centro da cara e só. Talvez tivesse ainda uma verruga nas proximidades do supercílio. Talvez. Talvez sequer tivera existido alguém ao meu lado por aquelas bandas... estou confuso. As luzes natalinas tinham um poder interessante de imbecilizar as pessoas.
Eu assistia aquilo em silêncio, queria mesmo era descer ao vale da morte, onde os beberrões perderam suas almas num náufrago de mágoas, e atracaram seus corpos inchados nos bares, nos puteiros. Sua idolatria era mais lírica, havia ali algo de realmente divino. Seu desamparo, tamanho, que buscavam um deus a cada esquina: — que lhes pagasse as contas, que lhes servisse um trago por ocasião; um deus para foder e para amar. Tudo isso eu maquinava em silêncio, até ser arrancado do transe pelo meu próprio gemido:
— Por que não manter essa cidade iluminada assim por todo o ano? Basta acender essas malditas luzes para que as pessoas se pareçam tão irresistivelmente felizes! Por que não manter as luzes sempre acesas? Isso provocaria uma comoção constante, e uma peregrinação igualmente permanente!
— Porra, sabichão, e quem diabos pagaria as contas se as luzes ficassem acesas para sempre?!
— ...
Por que sempre tinha de haver a merda da conta a ser paga?


2 comentários:

Sonia Pereira disse...

podia comentar várias passagens incríveis nesse idílio entre seres e deuses e moscas, mas o eixo (perdão se uso o recurso) desse comentário gira na direção de nossa conversa no cascas. Posso concluir que putas então são os seres que realmente encontraram a divindade? Mudando o foco, mas permanecendo no assunto: você já leu o conto do João Ubaldo "O santo que não acreditava em Deus"? Acho que ia gostar, apesar de não ser tão sutil quanto seu texto. Entenda sutil não como leveza, mas como densidade, que não se pode tocar, apesar do peso.

Rodrigo de Moraes disse...

Não, nunca li nada do Ubaldo, mas tomo de acato a recomendação! Ê, que me rejubila os olhos, ver a poeta se assenhorar da palavra como bem lhe convém, haha!