quarta-feira, 30 de novembro de 2011

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E por falar em existência, é também contra Deus que escrevo. O que fere à ótica é ninguém se aperceber de que, aquilo que faz de Deus receptáculo de toda grandiosidade, de toda cobertura de glória e louvores que lhe imputamos, não é senão, justamente, o dado que devia fazer dele o mais odioso dos seres. Se o que nos diferencia de Deus é essa incapacidade, absoluta, em dar existência às coisas, isso acaba por nos colocar numa posição surpreendentemente superior em relação a Ele. A existência é qualquer coisa de absurda, e isso inclui, obviamente, a vida. Se eu fosse Deus jamais conceberia qualquer crispação de vida! Não vede que a existência é um absurdo? E por que não haveria de sê-lo?! Dê-me uma resposta em definitivo e vos aponto a própria impostura! Essa minha lucidez, essa minha nauseante lucidez, é um brinquedo colorido e perigoso... E é por isso que isto é escrito contra Deus. É escrito contra Deus porque prefiro a excitação de sentimentos tumultuosos, do perigo, à languidez do oceano blue da paz teísta! — É escrito contra deus e contra os rebentos de qualquer deidade! Contra a sanha platônica inoculada! Este escrito é um objeto de gabinete destinado à implodir as criaturas de dentro para fora!, à implodir os Estados nacionais, à ser a mais letal que quaisquer das armas mais ignominiosas!: — A vida nos é dada como um fardo que somos coagidos a carregar; entretanto, quando ela, por um milagre, é convertida no maior dos presentes, quando de seu desvelamento em uma beleza absoluta, quase insuportável, nós, com olhos oscilantes, percebemos que ela lentamente nos escapa pelos dedos, num fluxo gélido, irracional e incontido. E, diante do devir, se vê uma criatura apodrecendo, no escuro, bebendo de um cálice suntuoso e estúpido, preenchida, a criatura estupida, até os vãos, por uma completude disparatada de nada! (sim, o nada é! E isso demonstra a estupidez e imperfeição do nosso supremo artífice!) Tudo isso enquanto a beleza insiste, ardendo, ali. A vida é qualquer coisa de absurda, logo, um supremo artífice que proporcione a existência é um serzinho menor, egoísta e digno objeto do mais apaixonado ódio! E como dito, pelo empuxo da absurdidade, sou lançado para além de onde é possível vislumbrar o quão sou superior a Ele. E é exatamente por isso que o homem foi capaz de assassiná-lo! E é exatamente por isso que podemos, hoje, neutralizar a sanha platônica inoculada! E é exatamente por isso que Nietzsche é sublime!

4 comentários:

E.S. disse...

Meu caro Rodrigo,

É curioso observar como toda a sua criação artística é sempre impregnada de força, até mesmo de raiva: os seus desenhos são sempre de personagens com a cara assustada, seus textos não são, de modo algum, sutis. O ser-artista Rodrigo não é pacífico. É como se você reservasse o que há, digamos, de mais problemático em você para a sua arte... E isso é muito bom, já que para o ser-humano Rodrigo só sobra o "oceano blue". Ora, se você, que é um simples mortal, consegue ter dois lados ( o do ser e o da criação), imagine Deus! E se você é capaz de criar algo, ainda que seja esse simples texto, está claro que não temos essa "incapacidade absoluta de dar existência" (a algo). Quem estuda o mínimo de arte sabe que nada pode ser exatamente criado do VAZIO, mas sim criado em paralelo com uma realidade pré-existente, seja tornando-a mais bela, deformando-a, enchendo-a de vigor, diminuindo alguns pontos, aumentando outros etc. A simples (tentativa de) reprodução da realidade observada não produz uma arte interessante. Assim, podemos concluir que Deus reservou o que havia de mais absurdo de si para a criação, enquanto reservou o que havia de melhor (dele) pra ele. O problema é que ele disse que tinha esse lado-não-tão-absurdo e algumas pessoas acreditaram e procuraram ver isso, sem nunca conseguirem completamente, outras não. Outras preferem o lado absurdo de Deus, como você :)

Eloá.

Rodrigo de Moraes disse...

Belo exercício crítico, minha igualmente cara, Eloá. :)


É claro que entre um objeto artístico consumado, e o "ser-no-mundo", como matéria-prima do artista, se interpõe um "obrador" , que tem de se reconhecer no interior dessa dinâmica. Mas, aí, estamos no âmbito das coisas criadas, e é por isso que "incapacidade 'absoluta'" tem aqui um estatuto peculiar — não somos capazes, em absoluto, de criar; isso é uma artimanha estritamente divina. O rigor é um decoro privilegiado, do qual, cabe ao filósofo, nunca descurar, haha.

"O problema é que ele disse que tinha esse lado-não-tão-absurdo e algumas pessoas acreditaram e procuraram ver isso, sem nunca conseguirem completamente, outras não. Outras preferem o lado absurdo de Deus, como você :)"

Ah... você é tão bonitinha que quase esmoreço! É por isso que, para você, só o "Rodriguinho blue", entregue numa caixinha envernizada e envolto num lacinho carmesim. ;)

Sonia Pereira disse...

aqui cabe o trecho de uma composição minha sobre o assunto: " a fé dos deuses nos velhos clichês perpetua o medo nos homens..." inspirada num texto que li na Bravo nª 58, julho 2007, pg 17, de Sílvio Augusto de Andrade, onde ele diz: "... se o medo cria deuses e clichês, a raiz da inteligência só pode ser a heresia...". E acrescento: se a nossa própria existência - assim como a de tudo o que supomos que exista - é tão sem sentido, então que lógica teria achar que existe algo superior que criou tudo o que não tem lógica? E se existe esse algo que criou tudo o que não tem lógica, não seria ele mesmo uma criação absurda? E se nós - que, se existirmos mesmo - seres assim tão absurdos, acreditamos nesse algo, que lógica isso tem? Eca, a cobra engolindo o rabo!

Rodrigo de Moraes disse...

A existência, de um ponto de vista formal, é lógica: Descartes com seu "ego cogito ergo sum" parece ter demonstrado isto. A exitência se torna um absurdo real quando é posta sob o lume de seres que sabem-se a si mesmos no mundo. A consciência é um acidente da matéria, o achaque que remia, enquanto condenava tacitamente o homem: que retirava com uma mão, tudo aquilo que dava com a outra!